Canetadas on line - Por Jurandir Carmelo
Respondendo ao email do meu querido amigo e eterno professor, pesqueirense JAIME MACIEL que vive hoje lá pra banda de Fortaleza, terra dos inimitáveis Chico Anísio e Renato Aragão. O seu email trás um slide sobre a vida dessa extraordinária Zilda Arns. Ao responder ao seu email, eis que nasceu mais uma CANETADAS sobre a terrinha. Lá vai ele:
É verdade, Jaime,
dona Zilda já faz muita falta, mas ainda estar presente entre nós todos. O amor que devotou aos mais necessitados a transformou numa extraordinária Mulher, conquistando a "imortalidade". Os seus gestos serão sempre lembrados.
Estou enviando à Câmara de Pesqueira um documento sugerindo que seja dado o seu nome a uma das novas ruas de Pesqueira, com uma placa simples, apenas com os seguintes dizeres: “RUA BRASILEIRA ZILDA ARNS”. Além da homenagem merecida em todo e qualquer lugar deste imenso Brasil, servirá para que as futuras gerações procurem saber do seu incansável e belíssimo trabalho em defesa dos mais carentes.
O exemplo deixado por Dona Zilda Arns nos anima a lutar pelo nosso povo humilde de Pesqueira, evidente que considerando as nossas limitações. Aqui na terrinha há centenas e centenas de crianças, homens e mulheres que sofrem pela insensibilidade de muitos, principalmente daqueles que deveriam cuidar da nossa gente.
Veja voce, que em recente Relatório apresentado por técnicos e auditores da CGU até mesmo VACINA PARA CRIANÇAS foi encontrada com a sua data de validade VENCIDA nas prateleiras dos Postos de Saúde. Isso é bem mais grave do que uma irresponsabilidade, pois que se constitui em crime imperdoável, cujos responsáveis deveriam sofrer as penalidades do nosso ordenamento penal pátrio.
Porém, a nossa terra está entregue as "baratas", para não dizer aos "ratos". Pior com o apoio de pessoas que se dizem pesqueirenses e pesqueiristas. Pesqueira vive hoje com o seu nome grafado em diversas ações nos mais variados órgãos: MP; PF; Justiça comum, eleitoral, tribunais, etc.
Dona Zilda Arns nos inspira, nos encoraja nos dá forças para não calarmos a nossa voz. E não calaremos! Emudecer seria compactuar com o que vem existindo em Pesqueira. E o que vem acontecendo por aqui é algo grave, muito grave. Estamos nos esforçando ao máximo para criar o FÓRUM PERMANENTE DE DEBATE DE PESQUEIRA, para que possamos discutir essas questões.
A indignação é grande. Ontem fiz uma caminhada pela Pitanga, Pitanguinha, Cohab II, Central, Vila do Carimbó, Matadouro e Vila Anápolis. A pobreza é de Jó. Ao meio dia passando pelas casas, falando com as pessoas, via que o fogão estava desligado. Uma distinta senhora me permitiu fotografar o sistema de esgoto da sua residência. É uma tristeza! Fotografei e ouvi pessoas. É um registro que dói na alma.
Hoje vou ao Bairro de Pedra Redonda (a dos pobres, lá pras bandas da Fazenda 4 Cantos (de Raimundo Holanda) e descerei pela Baixa Grande (grande de problemas de toda ordem) com o mesmo objetivo, fazer um diagnostico, ouvindo as pessoas.
O meu filho caçula Jurandir Junior - 16 anos, chamou a minha atenção: "Pai, a sua máquina é, também, filmadora, com capacidade para 4 horas de filme". Colocou-se à disposição para fazer a filmagem, movido pela sensibilidade d'alma ao passar as fotografias para o computador e, ainda, se comprometeu de levar o assunto para a sala de aula do Censg, colégio aonde estuda a 3º série do segundo grau. Pediu-me as fotos para fazer um painel e vai debater o assunto com os seus colegas.
Perguntei ao JR: O que vais fazer? Respondeu: "Não sei! Sei apenas que alguma coisa tem que ser feita. A juventude estudantil tem, também, de fazer alguma coisa. E eu vou propor à turma discutir o assunto". E concluiu: só agora Pai é que estou entendendo esse seu trabalho. Eu vou lhe ajudar, disso fique certo!
Agora quando recebo esse belíssimo email que voce me enviou, cujo conteúdo só entende aqueles que ainda sonham com dias melhores para a nossa gente, só aqueles que valorizam o trabalho feito por dona Zilda Arns, por dom Hélder Câmara, dentre outros. Pesqueira precisa da força, do espírito humanitário presente de dona Zilda e dom Hélder. Precisa mais: precisa de pessoas como voce e muitos e muitos com os quais nos relacionamos via internet, esses extraordinários pesqueirenses e pesqueiristas que formam a Grande Nação Pesqueirense, nesse imenso Brasil. Vocês podem ajudar e muito ajudar à nossa terra e a sua gente humilde, com as suas experiências, trocando ideais, repassando as lições aprendidas no caminhar de suas existências.
Hoje folheando as páginas do JORNAL ERA NOVA, do ano de 1967, àquele momento tendo como diretor o nosso querido professor Padre Guilherme de Andrada, encontrei a transcrição - publicada em diversos e seguidos números do jornal - da Encíclica Papal "POPULORUM PROGESSIO", lavrada em livro próprio das escrituras do Vaticano pelo Papa Paulo VI.
A encíclica, ainda hoje bem se encaixa aos corações dos homens e mulheres, porque feita para o futuro. E futuro a que o Santo Padre se referia é o hoje, com certeza, também, ainda o amanhã.
A "Populorum Progressio" é diferente de todas as encíclicas já publicadas. Diferente por exemplo da encíclica "Rerum novarum" (1891) do Papa Leão XIII, mais tarde aperfeiçoada por João XXIII. A "Rerum novarum" tomava, por exemplo, "...a defesa dos pobres em face das injustiças do capitalismo liberal". Já a "Populorum Progressio" tinha na defesa dos países pobres a sua essência, sendo assim mais abrangente.
Dividida em temas, aqui destaquei alguns que ainda repercute nos dias de hoje em forma de Apêlo.
Eis "O Apêlo" contido na "Populorum Progressio": "E se é verdade que o Mundo se encontra num lamentável vazio de idéias, fazemos um apêlo aos pensadores e aos cientistas, católicos, cristãos, adoradores de Deus, ávidos de boa vontade; ao exemplo de Cristo nos atrevemos a pedir-vos com insistência: "buscai e encontrareis", tomais os caminhos que levam através da colaboração, do aprofundamento do saber, da grandeza do coração, a uma vida mais fraternal numa comunidade humana verdadeiramente universal".
Ainda, em "Apêlo", diz a encíclica papal: (nº 80: "...que todos os homens e todos os povos assumam as suas responsabilidades"; nº 75: "...a cada um incumbe o compromisso decidido de se empenhar, segundo as suas possibilidades e fôrças, na luta contra o subdesenvolvimento"; nº 81, exorta aos católicos: "...não esperar passivamente ordens e diretrizes";
Bem ao meio da encíclica, a de nº 32: "...todos os homens são convidados a esta ação solidária e coordenada, a fim de combater e vencer as injustiças, dando provas de imaginação criadora, pois, o desenvolvimento exige transformações audaciosas, profundamente renovadoras".
Jaime,
talvez movidos pelo sentimento humanitário contido na encíclica papal "Populorum Progressio", um grupo de jovens pesqueirenses, dias depois de concluída a publicação da referida carta papal, se reunia e criava a AAACR - Associação dos Antigos Alunos Cristo Rei.
O jornal “ERA NOVA” - (edição de 23 de julho de 1967 - Ano XIII - nº 634) trás à sua página 4, uma nota intitulada "NOTÍCIAS DA A.A.A.C.R.”, com o seguinte teor: "Realizou-se no dia 15 p.p. a solenidade da instalação oficial da Associação dos Antigos Alunos "Cristo Rei" com a presença de altas autoridades, antigos alunos e pessoas da socidade. Após a sessão solene foi servido um Coquetel aos presentes. Ainda naquele dia, os antigo alunos promoveram nos salões do clube dos 50 animadíssimo baile de instalação. A 1ª Assembléia da A.A.A.C.R. realizou-se na última quinta-feira (21 de julho), ocasião em que foi eleita por aclamação a 1ª Diretoria Provisória. Na mesma forma foram aprovados os estatutos. Estes estatutos foram elaborados pela junta Diretiva e receberam os estudos especiais do Dr. Hélio Siqueira Campos. Os dirigentes da A.A.A.C.R. já se movimentam no sentido de registrar a nova associação pesqueirense a fim de dar-lhe reconhecimento jurídico”.
Lembrou-me bem desta data. Participei de todos os eventos. A nova associação veio se juntar ao Clube de Jovens de Pesqueira, que sucedeu o CEP – Centro Estudantil de Pesqueira, este composto por Alder Júlio Calado; Adilson Simões; Giovanni Siqueira Tomaz de Almeida Maciel; Virginia e Neide Barbosa; Jonas Brito e sua Irmã Bera; Janete Cabral, e esse seu amigo e aluno, também de Lúcia Dalva (grande professora), entre outros.
Juntos CJP e AAACR criamos o Museu de Arte Sacra de Pesqueira; Instalamos, com a luta do jovem seminarista Adilson Simões, ou Monsenhor Adilson, as primeiras casas da Vila de Santo Antonio (Matadouro). Em campanha de venda de jornais e garrafas velhas contribuímos para que fosse colocado o “taco de madeira” da quadra de esportes do CSD.
Realizamos as chamadas “CAMINHADAS DA ESPERANÇA”, que se constituía em discutir assuntos inerentes à vida dos jovens pesqueirenses, sempre com o apoio de Dom Severino Mariano de Aguiar, 4º bispo de Pesqueira e dos padres Francisco de Assis Moura e Osvaldo Bezerra de Oliveira.
Ao lado de Silvio Lins, Nivaldo Burgos Gabinho, Toinho Torres, Hugo Chacon entre outros, saímos pelos bairros de Pesqueira fazendo reuniões comunitárias, discutindo com a comunidade os seus problemas, buscando com isso fazer um diagnóstico sobre as necessidades primeiras da nossa gente.
Defendemos os professores (os seus salários) até que ficamos aprisionados dentro do Colégio Comercial Municipal de Pesqueira. Mandaram Paulo Melo viajar e não nos permitiram fazer uma passeata, mesmo que pacífica, exigindo do prefeito da época (por questão de respeito à memória do mesmo, não cito o nome) que pagasse os salários dos professores. Foi a ultima ação do CEP. Depois disso mandaram fechar o mesmo. Foi quando criamos o CJP. Ao nosso socorro vieram os integrantes da AAACR, negociaram e saímos às ruas, num protesto de silêncio, mas saímos. No outro dia o Sargento Viana manda nos buscar para o Tiro de Guerra, para responder a um “possível” inquérito policial militar, sob os olhares de um Tenente do Exército cara dura que veio de Garanhuns. Tudo foi lavrado em ata. Misteriosamente o livro de atas do CEP sumiu.
Hoje não temos o mesmo vigor de ontem, mas não nos falta vontade e decisão de organizar o nosso povo para defender os seus direitos, as suas necessidades. Vamos continuar na luta. Vamos buscar conscientizar a nossa gente. Vamos lutar para que os “FICHAS SUJAS” DE PESQUEIRA caiam fora da política e passem a responder pelos seus crimes de improbidade administrativa e outros mais.
Hoje temos mais ou menos umas trinta pessoas que querem participar dessa luta. Com a organização do “FÓRUM PERMANENTE DE DEBATE DE PESQUEIRA” vamos às ruas, aos distritos. Vamos à praça pública protestar contra esse estado de coisa que vem acontecendo em Pesqueira.
Recentemente fizemos duas CARTAS ABERTAS AO SENHOR GOVERNADO DO ESTADO protestando pela ausência do Estado em nossa terra. Depois de três anos e meio de gestão, finalmente o Governador veio à Pesqueira. Aqui assinou uma série de propostas, passando por questões estruturadoras, a exemplo do que determinou fazer em relação ao projeto ÁGUA PARA PESQUEIRA. Essa CARTA DE INTENÇÕES do governador não vai ficar no papel. Vamos lutar para que saia do papel e passe ao estágio da cal e da pedra, ou seja, concretize-se, torne-se realidade.
Veja meu Caro Jaime como um email mexe com as pessoas. Veja como dona Zilda Arns ainda continua no seu trabalho “evangelizador”.
O saudoso jornalista Eugênio Chacon em matéria intitulada “OS EX-ALUNOS DO CRISTO REI ARREGIMENTAM-SE” e publicada no ERA NOVA (edição de 30 de julho de 1967), finalizada a mesma com uma pergunta: “ Será que os ex-alunos deixarão cair a bandeira?”
Encerro lembrando mais uma vez o Papa Paulo VI, quando escreveu: “A fome: sofrimento ignóbil e intolerante de grande maioria da humanidade. E sobre o qual, mais tarde, ninguém poderá dizer: “Eu não sabia...”
Mesmo que a dor seja menor, mesmo que o surdo terremoto daqui não faça tremer a consciência dos nossos governantes, Pesqueira tem, também, o seu HAITI.
Parodiano o jornalista Eugênio Chacon: não deixemos a bandeira cair! Como eu não sei, mas vamos reativar a AAACR, esse patrimônio de todos nós. Vamos conversar com Silvio Lins, Gabinho, Toinho Torres, Hugo Chacon e outros mais. Vamos localizar o livro de atas, os estatutos, enfim: vamos procurar fazer funcionar a AAACR.
Fraternal abraço. No mesmo sentido para Lúcia Dalva e os demais familiares
Bom domingo!
Jurandir Carmelo
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