A pedido de leitores, publicamos esta poesia de luizinho Freitas, nesta sexta-feira de sol escaldante.
Memorial frustrante de minha terra
A velha estação
de tantas despedidas e retornos:
um centro de artes;
trilhos cobertos de chão
escondendo os trens.
As fábricas
já não transpiram mais
o cheiro de doce.
Mas os bueiros de alvenaria continuam firmes
no chão e no ar,
bocas para o céu
bebendo chuva
e lembrando
a efervescência producente das máquinas
e dos homens.
As ruas surgiram
nos terrenos demarcações onde pisávamos.
Uma infinidade de motos
substituindo
os poucos, combalidos e cansados
veículos de aluguel
da Praça Dom José Lopes.
Que é feito dos lugares
onde nós nos entretínhamos
como
o Cinema Moderno,
o Clube dos 50 e o dos Radicais
com o melodioso e animado som
de suas orquestras ?
E as corridas de cavalos do Prado,
onde estão ?
A Casa Zé Araújo e a loja de Seu Cazuzinha ?
O jornal A Voz de Pesqueira, dos irmãos Chacon,
se calou.
O badalo do sino da Catedral
faz recordar o sacristão Seu Lula
atravessando a rua,
passando pelo desassossego
das mocinhas namoradeiras
por fazer soar
as nove horas da noite que marcavam
o seu recolhimento ao lar
sob a arcaística obediência
aos seus pais.
O Ginásio Cristo Rei de Padre Souza,
onde fizemos bons colegas, grandes amigos
e amealhamos conhecimentos,
é Prefeitura
e o seu campo,
onde jogávamos bola,
é colégio.
A esplendorosa
Praça Dom José Lopes
foi sufocada;
trocaram a sua fertilidade, colorido, vida
e perfume
por um abandono mórbido
após reduzirem,
criminosamente,
os seus canteiros.
Todo um acervo agasalhado, hoje,
tão-somente,
na doce memória dos antepassados.
Sim, é progresso !
Mas... como machuca !
Pesqueira, 20 de abril de 2006
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