SEM SAMBA E SEM TANGO - Por Walter Jorge de Freitas
Assim será o banquete final da Copa do Mundo. Tidas como favoritas, as seleções comandadas pelos ex-jogadores Dunga e Maradona, desceram do trem antes de sua chegada à última estação. Não completaram a viagem, para frustração de seus torcedores.
A meta agora é encontrar os culpados pelo fracasso. No caso da seleção brasileira, não achamos que os jogadores tenham perdido sozinhos. Junto com eles, considerem-se também perdedores o comando da CBF, o treinador e boa parte da imprensa esportiva, grande responsável pelos fenômenos e fabulosos da vida.
A absolvição parcial dos jogadores deve-se ao fato de que eles não se ofereceram para ir à Copa. Foram convocados e tiveram muito tempo para serem avaliados da cabeça aos pés.
Como todo mundo viu nas cinco partidas que a seleção jogou, alguns jogadores estavam visivelmente fora de forma física, alguns lesionados e quase todos sem o devido preparo psicológico necessário para manter o equilíbrio emocional em situações adversas.
Outra coisa: somos do tempo em que a obrigação de marcar era dos zagueiros e não dos atacantes como se vê nesse futebol “moderno” inventado para mutilar a criatividade, a leveza e a ginga dos que são realmente craques e que por ordem de treinadores medrosos e retranqueiros, abandonam as suas características a fim de fazer o que não é sua função.
Salvo engano, muitas das faltas que ocorrem nas proximidades da grande área, são cometidas por atacantes que voltam para marcar e por não serem do ramo, apelam imprudentemente, colocando em risco a própria meta, quando deveriam estar lá na frente azucrinando a defesa adversária.
Mas como dizem os filósofos do mundo futebolístico, não adianta chorar o leite derramado. Seria muita pretensão querer que uma seleção dependente de um Kaká visivelmente fora de forma, ao ponto de se transformar em um jogador violento, de Luiz Fabiano que em vez de cavar faltas, fazia nos defensores adversários e de um Felipe Melo, cuja maior proeza foi ganhar o título de pior jogador estrangeiro na Itália.
E os argentinos? Há esses não perdem a pose. Fizeram a maior festa na chegada da delegação depois da derrota que antecipou a volta dos meninos de Maradona.
Logo eles que tinham como certa a conquista dessa Copa. Uma filha minha e um genro que estiveram na Argentina durante o São João, sentiram de perto o entusiasmo e a confiança dos portenhos. Eles bem sorridentes, ironizavam dos brasileiros que lá estavam a passeio.
Se compararmos os desempenhos dos treinadores do Brasil e da Argentina, veremos que os mesmos usaram critérios bastante diferentes.
Dunga deu preferência aos dotes físicos dos convocados, esquecendo que o futebol do Brasil é jogado sob o ritmo do samba bem gingado e molemolente, por jogadores leves, que chamam a bola de você, enquadram os adversários e sempre buscam do gol.
Maradona, por sua vez, chamou as maiores estrelas do seu país. Esqueceu que uma seleção não se faz apenas com nomes. Muitos estavam fora de forma e faltava espírito coletivo ao time argentino. Os mais paparicados pelo treinador e pela imprensa tanto daqui quanto de lá, sucumbiram, a exemplo de Messi, tido e havido como o maior do mundo.
Fica a lição. Numa copa do mundo, depois das eliminatórias, todos se nivelam, às vezes por cima, às vezes por baixo e o favoritismo, na maioria dos casos, fica sem validade. Ainda bem que entre as finalistas ficaram três seleções européias (Alemanha, Espanha e Holanda) que mesmo não deslumbrando os críticos com exuberantes exibições, tiveram desempenhos considerados bons antes do Campeonato Mundial. Os uruguaios, que chegaram caladinhos e sem muita badalação, atingiram o que talvez nem eles esperassem.
Ontem, a Holanda venceu a valente seleção uruguaia e há poucos instantes, tivemos a vitória da técnica contra a burocracia. Com certeza, teremos uma final de alto nível e isto vai provar que o futebol à base da retranca é coisa de quem não tem criatividade.
Pesqueira, 07 de julho de 2010.
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